quarta-feira, 1 de abril de 2009

MR. MARLBORO

dedicado aos fumantes da aldeia

Quando, cambaleando, chegou em casa, a noite já se despedia. Apalpou os bolsos à procura de um, não achou. Desolado, exclamou: vício maldito! Maldito ou não, precisava de um imediatamente. Pior é que nas proximidades não encontraria nada aberto. Sem alternativas, uma idéia acendeu-lhe a mente. Transformo-me eu mesmo em um. Riscou o fósforo. Iniciou pela ponta dos dedos dos pés, ainda úmidos, mas já livres dos sapatos e meias, deixados ao longo do corredor. Teve de repetir a operação seguidas vezes. Na terceira, obteve sucesso. Começou então a tragar, consumindo-se em longas baforadas. Quando a brasa atravessou os órgãos genitais, sentiu uma estranha sensação, e gostou. Quis sentir de novo, mas já não era mais possível, a região agora era somente um rastro de cinzas.
Há tempo para tudo, pensou.
Pois não é que quando a brasa consumiu o abdome e começou a se aproximar do tórax, ele, tomado por um impulso vindo não se sabe de onde, resolveu parar de fumar e se apagou.
Tinha pavor de câncer de pulmão.

18 comentários:

Airton Sampaio disse...

Quando a gente é muito jovem, não há como se ligar em Epicuro. Com os anos e as pancadas da vida, às vezes nos lembramos (mas devíamos nos lembrar sempre) das três célebres regras de ouro do Epicurismo: 1) Se o prazer de agora embute um forte sofrimento futuro, NÃO ao prazer de agora; 2) Se o prazer de agora embute um pequeno sofrimento futuro, SIM ao prazer de agora; 3) Se o prazer de agora se equilibra com o sofrimento futuro, SIM ou NÃO ao prazer de agora.
O J. L., nesse pequeno grande conto, e sem falso moralismo, denuncia o demônio do tabagismo melhor que as inúmeras, e ineficazes, propagandas antitabagistas do governo.
Que os amigos fumantes curtam o conto e ajam, por Júpiter!, epicuristicamente...

J.L. Rocha do Nascimento disse...

É amigo Airton, foi a maneira que eu encontrei de oferecer uma contribuição, ainda que pequena, ao combate ao fumo. Livremente inspirado num amigo comum, meu e seu, de tantos outros, você sabe de quem estou falando, o que também não é segredo. Ele sabe disso.

abs,

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro João, eu também sei quem é este amigo comum. Mas de qualquer maneira, ainda, me vi há 30 anos atrás. Não tive câncer de pulmão, mas amarguei tuberculose e um nódulo benigno no pulmão esquerdo, mal menor. Este conto não é um alerta, é uma mensagem sincera e trágica contra todos os fumos, todos o fumantes juntos. Parabéns, pela linguagem asséptica contra o tabagismo que um dia foi meu também. Fiz uma opção pela vida e deixei de fumar! Espero que o nosso amigo comum fique alerta e jogue o próximo cigarro na lata de lixo.

EMERSON ARAÚJO disse...

João estou precisando de ajuda. Ligue pra mim: 8858-7421

Zazá disse...

Eu já elogiei pessoalmente o conto(sim, caros internautas, tenho esse privilégio).

Eros Wilson disse...
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Eros Wilson disse...

sou um poeta fumolanlante,
tem muita gente que adoraria que
eu escrevesse mais e fumasse menos

J.L. Rocha do Nascimento disse...

faça isso então poeta, escreva mais e fume menos ou não fume mais antes que leve fumo. A poesia agradece. Escrever é preciso, fumar não é preciso.

Dr. Eros disse...
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Erlane Sousa disse...

Simplesmente bárbaro!! Porque não nos consumimos e nos deixemos consumir (o que temos de melhor) em vez de consumimos o fumo?

Dr. Eros disse...
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Dr. Eros disse...
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Anônimo disse...

Fumus boni juris!

Cesar Cruz disse...

Continho sensacional! Realismo fantástico! Adorei e tive inveja: queria ter sido eu a escrevê-lo!

forte abraço
Cesar Cruz
cronista e contista paulistano-tupiniquim

ps. frequentarei este blog! E continuarei fugindo do monte de lixo que se acha por aí!

Anônimo disse...

Viagem... agora tu continua dizendo que (igual a Fênix) ressurge das cinzas e fuma mais um...

Eros Wilson disse...

Um legítimo corpus conti

J.L. Rocha do Nascimento disse...

Cesar Cruz,
seja bem vindo e valeu pela força!
Aprecie os outros textos.

abs,

Eros Magnus UM GRANDE HOMEM disse...
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