sábado, 13 de setembro de 2008

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE SHAKESPEARE

A moça de olhos negros e vivos
me disse quero um autógrafo
- me dê um papel
mas ela falou que não. "aqui mesmo",
ergui sua coxa de pêlos dourados
e no azul claro do short
pus a minha emoção.

Acima a lua quase cheia e metálica resvalava sua lembrança, Ofélia de onde saíste? De algum livro antigo ou de uma colagem de imagens que serpenteava na memória sutil mistério?
Ofélia branca e pálida quase lua cintilava fugaz à luz de vapor de mercúrio, deslizando para cá e para lá, cisne branco no lago azul da ópera e de meus olhos presos, Ofélia.
Ela servil a olhos senhores, Ofélia rara e vera cria, entre o silêncio de seus olhos e a música que fluía do bal, ela dócil eva antes da mordida tecia os guizos tua presa, meus olhos.
Como arranjar as palavras, as imagens, a ficção que fluíam de seu mistério?
As ruas se desfaziam na noite veloz e ela entre arisca e terna, os lábios prendendo palavras sumiam na minha boca, e na língua seus dentes, Ofélia, Ofélia, Ofélia na tua pele clara a minha bronzeada, e o milagre mestiço correndo nas veias. Entre a ânsia contida nos olhos e a canção de Fagner, ela vampi me mordia, e eu acariciava o seu silêncio ávido, imprevisivelmente Ofélia.
O rio misterioso, cão pestilento deslizava sobre colunas trêmulas e luminosas, trêmulas como suas mãos em minhas costas e a cada olhar acuado uma menina se revelava em gestos fugazes, mas sob o vestido amarelo tremiam, tremiam, ao ritmo dos passos, a alça teimava em desnudar-lhe os ombros, seus seios tremiam.
A cada esquina ruas iluminadas se abriam para o lúdico silêncio, out-door, neone luzes, e luzes e luzes, os olhos negros e piscos revelavam o desenrolar de um novelo interminável, seus olhos negros e piscos se embaraçavam em dúvidas, Ofélia.
Ela entre a queixa e o afago e meus lábios faziam festa nos cabelos ciganos que se desfaziam, o pescoço a trilha de seu segredo, Ofélia, Ofélia, Ofélia no róseo de teus lábios a fome da maçã encurtava caminhos como um blue antigo de Joplin, e diante de minha sede a doce tarântula acesa, pão e vinho, e nos banqueteávamos sonâmbulos.
Às vezes ela dizia que as palavras não batiam com os gestos, eram movediças, cheias de ciladas, mas sem as palavras as emoções não tinham a força que a sua sensibilidade reclamava, mas com um negaceio, ela fincava o pé na sua decisão, revelando a face ofídica de mulher.
Mas sobre nós o olhar azul da quimera estendia sua luminosidade invisível e imagens impertinentes batiam na tua porta Ofélia, Ofélia, Ofélia, e passos que passos seguíamos? A malha preta do vestido já não ocultava suas pernas e o hálito de seu corpo anunciava o paraíso oculto que enlouquecia, atraindo a avidez de meus lábios.
E o dadinho invisível girava, girava, girava amorosamente à luz de olhos esquecidos, a sorte na palma da mão, mas Ofélia intuía pedras se movendo no caminho e farpas fluíam de seus olhos, e do outro lado de seu silêncio eu insistia que viver não era apenas se guardar e não correr riscos. Ofélia nada dizia e imóvel omo um vegetal, eu a despertava com um beijo.
A Ofélia quase nada me guardava e no desbravar só luz da pérola intacta, nem regras e o dadinho girando, girando, girando à penumbra, dois copos, ela distraída raspava o rótulo da garrafa, e do lóbulo da orelha o azul-escarlate me atraía e me denunciava com as cores do enigma.
E repentinamente ralhos e sussuros inaudíveis pareciam tomar o seu pulso branco e ela tímida fixava o rio, que perdia o seu encanto, e leve como uma pluma, desvencilhou-se de meus braços e lentamente distanciava. Além o portão, ela dócil que branca e pálida, por instantes, fixou-se no brilho frio de meus olhos e apenas um vulto sumiu nos corredores sombrios.
A noite se estendia e sua esfinge crescia, crescia, crescia em mim como o bolero de Ravel, e além de seu enigma de criatura, a ansiedade roendo as horas, os lábios sussuravam Ofélia, Ofélia, Ofélia e la parecia surgir inteira nos out-doors que se multiplicavam na cidade.

6 comentários:

Anônimo disse...

Sem pé nem cabeça...apenas colagens soltas.Muito pobre!

EMERSON ARAÚJO disse...

José Pereira Bezerra (é terrível esta nova nomeação Bezerra JP) consegue através de um exercício de linguagem que me lembra Manuel Puig(novelista argentino)montar através de jogos de colagem, burilações morfo-sintáticas possíveis e impossíveis,uma versão ímpar de "Hamlet" ao lado do caís do Parnaíba ou Poti? Ofélia aqui me fez lembrar de Lande Muniz, Glória Santos, Ana Márcia Mascarenhas e tantas outras que aceitaram empurrar minha emoção goela abaixo, quadris abaixo. Valeu Pereira você me fez, nestes dias, acreditar que a intertextualidade é um recurso que impõe ao escritor tantas possibilidades, tantos quereres além do universo da arte literária. Ah, os tarântulas são os poetas atuais do Piauí.

Emma disse...

Parabéns, Bezerra JP!

Excelente texto. Adorei apreciar a "lua quase cheia e metálica", passear por esse cais, olhar o rio... São tantas as sensações despertadas por essa leitura... possibilidades da intertextualidade...

f.wilson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
f.wilson disse...

O melhor do texto (conto) do Bezerra JP é sem dúvida a descrição. Montagem ou encaixe a descrição é da natureza literária, um "pára-quedas" pousando no alvo ideal pintado pelo narrador.
Bezerra é um escritor maduro, protegido em sua trincheira,sacos de palavras repelem o sal dos mares orkut.

Anônimo disse...

Sejamos mais racionais, maduros, críticos...e sem babações. Os TRÊS Mosqueteiros não merecem isso.