terça-feira, 26 de agosto de 2008

O CORVO

Não me lembro de quando tudo começou. Lembro-me que primeiro vieram os pardais, depois algumas graúnas, em bandos. Os sabiás, logo em seguida, não paravam de cantar. Por fim, pousou um falcão e ele era garboso, as asas tocando o chão, um olhar imponente, todos pareciam lhe render homenagens. Pouco a pouco, uns silenciosamente outros batendo as asas, foram se aninhando, o que até me divertia. No início ainda tentei afugentá-los, mais pela sujeira que deixavam do que pelo peso sobre minha caixa craniana. Não demorou e eu desisti, mesmo porque eram alegres e simpáticos, cada um com uma plumagem mais bonita do que outra, eu podia dizer que a vida até que estava colorida. E viviam em perfeita harmonia, assim concluía, àquela época. Vinham sempre no final da tarde, quase sempre em bandos e na manhã seguinte, em revoada, batiam suas asas, o destino eu ignoro, mas sempre estavam de volta ao entardecer, com o papo cheio, como se costuma dizer, até que um dia não voltaram mais. Algo os assustou e sei o motivo. Foi quando chegou o corvo, com seu canto de mau agouro e seu bico curto e afiado, sua veste negra como o breu da noite, nenhuma candura havia nele. Foi um duro golpe, justo no momento em que eu começava aprender o canto do sabiá eles se foram. Sinto saudade, ainda que tivesse, toda manhã, que aspergir os cabelos, antes de penteá-los, para remover sementes, restos de insetos e pequenos frutos deixados para trás.

O corvo, quando pousou, de imediato abriu uma clareira em volta com suas garras afiadas. Coincidentemente, meus cabelos começaram a cair. E não parava de grasnar, de forma tão sombria que assustava a coruja em frente. Aliás, minto, parava quando sentia fome, imagino. Aí então começava a bicar mais fortemente, que nem uma britadeira de asfalto. De tanto insistir, abriu-se um buraco no meu cérebro do tamanho de uma cratera lunar, embora aqueles açougueiros, que se autodenominam médicos, digam que, na verdade, a tal cratera foi conseqüência de uma queda acidental. Certo dia bicou tanto que levou meu lobo temporal e se alojou no lugar. Dali só saía à noitinha, quando todos em minha volta estavam dormindo, mas logo retornava com restos de vísceras em volta do bico, sempre ele. Foi a partir desse momento que me veio essa apatia que alterno com raros momentos de euforia, que é quando vejo paredes no lugar de portas e estas no lugar daquelas. Todas as pessoas segundos depois de vê-las me parecem estranhas. Essas mesmas pessoas, que se queixam ser da família, do que não me convenço, dizem não acreditar que na minha cabeça há esse demônio como inquilino, nessa altura já pensando no melhor meio de se reproduzir.

Insisto em dizer que não estou louco. E mais: neste momento o corvídeo está comendo o que me resta dos neurônios, agora em silêncio, que é pra não chamar atenção. E eu é que não tenho culpa se eles não conseguem sequer enxergar suas alas negras. Talvez no dia em que elas cobrirem meu corpo como um manto negro é que irão acreditar em mim, mas aí já terá sido tarde, eu creio. O corvo, impune, baterá asas.

7 comentários:

Anônimo disse...

Conta-se que Salvador Dalí,em suas alucinações, via um corvo pousado, defecando, sobre a cabeças das pessoas. Teria sido essa anedota a fonte do argumento de seu conto?
Não quero crer que tenha sido, como sempre se dá na literatura, mais uma recorrência ao "The Raven", de Edgar Alan Poe.

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro João as recorrências na literatura são mais que possíveis. Chamo-as de intertextulaidade. Mas lendo agora este conto me remeti para outros corvos que existem e estão em nós. Este teu corvo, apesar da imagens alucinantes das bicadas que devem doer pra danar, estranhamente acabei sentindo-as em mim também. Belo conto e de uma estilística fenomenal. A literatura brasielira de expressão piauiense agradece. Abraços.

J.L. Rocha do Nascimento disse...

Meu caro anônimo e grande poeta Emerson:
ao primeiro, confesso que não conhecia - até agora - a alucinação atribuída a Dali, já que são tantas. O poema de Poe, evidentemente, o conheço, na tradução de Machado. Mas não foi a fonte do argumento não, a não ser pelo título (que vem por último), talvez, cuja lembrança é inevitável. E não renegaria, a companhia seria mais que ilustre. E como diz o poeta Emerson, as recorrências são mais que possíveis. Agora mesmo, a Record publicou o livro "Recontando Machado", no qual vários autores revisitam temas machadianos a partir do original. A idéia partiu de um fato real, gênese do meu processo de criação. E fiz, ou pelo menos tentei fazer, da alucinação uma alegoria, a verdadeira intenção. E você poeta
Emerson tem toda razão. Há um corvo em cada um de nós, sobre nós e em torno, tangenciando, nos bicando. Basta um olhar pelas ruas, ligar a tv, ler os jornais, em período eleitoral então, vai ter sempre alguém ou algo bicando nossa consciência. Cabe-nos resistir, para que o desfecho não seja o do conto, mas isso é uma outra história.
Abraços!

f.wilson disse...

Há uma lenda que diz que corvo não morre, se incorpora no autor que o cria. Allan Poe, terno e dedos manchados de nanquin pousa numa janela para bicar a imaginação de mais um grande escritor.

Dr. Eros disse...

Devia este conto virar um curta- metrage protagonizado por Anthony Ropkins, o grande Anibal!!!!!!

Anônimo disse...

È...esse corvo que chega rouba nosssa memória e nos faz viver em segundos.

Anônimo disse...

A tradução de O CORVO de Machado de Assis é famosa mas não é a melhor. Digo o mesmo da tradução feita por Fernando Pessoa.
Em português, a melhor é a de Milton Amado.
Sugiro a leitura de "O corvo e suas traduções", organizado e comentado por Ivo Barroso: http://blog.meiapalavra.com.br/2012/03/04/o-corvo-e-suas-traducoes-ivo-barroso/