terça-feira, 21 de abril de 2015

RIO DE HERÁCLITO

Sou o rio de Heráclito
Quem me vê assim imóvel na superfície
Não sabe o que me movimenta por dentro
Minto
Na verdade
Sou como o rio de Heráclito
E quem me vê assim calmo na superfície
Não imagina como me movimento por dentro
Decididamente, sou o rio de Heráclito
E a face serena que o espelho d’água reflete 
É apenas um convite para o mergulho
Talvez eu não seja o rio de Heráclito, apenas tomei-lhe emprestado
E acrescentei uma diferença
Sou circular
Assim como o redemoinho
Como a volta a mais do parafuso
Ou talvez eu seja mesmo esse rio 
Se o que sou agora
Eu já fui antes
E carrego comigo uma única certeza
Que não sei se fruto da vigília ou do sonho
Se, ao contrário de Borges, nunca soube a sorte do meu destino,
Posso dizer que é do fundo do leito do rio que tomei de Heráclito
Que retiro a força
Que ora rompe e esgarça
Que ora se queda e se levanta
É lá que sedimenta
A matéria dos sonhos com a qual construo e sou construído.



Um comentário:

Anônimo disse...

"O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo", e eu sou Borges.