terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O PONDERADOR




A tartaruga australiana do promotor enquadrou-o em vários tipos.
O meritíssimo ficou na dúvida entre condução coercitiva, prisão preventiva ou temporária. Jogou as cartas e deu que era caso de preventiva, que foi decretada. Ele, recolhido.
Nem bem viu o sol nascer quadrado, sua advogada, decotada, debruçou-se sobre a mesa do excelentíssimo, perdido entre papéis (ainda havia celulose em abundância), jogos de paciência e metas a cumprir.
Com a lupa numa mão e a caneta noutra, fez-lhe ver que na letra da lei havia uma brecha.
Lisonjeado com as mesuras, o meritíssimo ponderou uma, ponderou duas, ponderou três vezes e, ao final, vomitou meia dúzia de latim antes do decreto de soltura.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Odisseu


Foi tudo mentira. Nunca regressei. Quando a cidade ainda ardia, apaixonei-me por uma troiana, juntei-me a Enéas, desembarcamos juntos às costas do Lácio e o ajudei a fundar Roma.

terça-feira, 21 de abril de 2015

RIO DE HERÁCLITO

Sou o rio de Heráclito
Quem me vê assim imóvel na superfície
Não sabe o que me movimenta por dentro
Minto
Na verdade
Sou como o rio de Heráclito
E quem me vê assim calmo na superfície
Não imagina como me movimento por dentro
Decididamente, sou o rio de Heráclito
E a face serena que o espelho d’água reflete 
É apenas um convite para o mergulho
Talvez eu não seja o rio de Heráclito, apenas tomei-lhe emprestado
E acrescentei uma diferença
Sou circular
Assim como o redemoinho
Como a volta a mais do parafuso
Ou talvez eu seja mesmo esse rio 
Se o que sou agora
Eu já fui antes
E carrego comigo uma única certeza
Que não sei se fruto da vigília ou do sonho
Se, ao contrário de Borges, nunca soube a sorte do meu destino,
Posso dizer que é do fundo do leito do rio que tomei de Heráclito
Que retiro a força
Que ora rompe e esgarça
Que ora se queda e se levanta
É lá que sedimenta
A matéria dos sonhos com a qual construo e sou construído.



sábado, 18 de abril de 2015

O MANDAMENTO MAIS BANALIZADO DO MUNDO

No restaurante, dois amigos petiscam e bebem cerveja enquanto aguardam o repasto principal. No fundo, um casal se levanta, se dirige à saída e cruza com eles. O homem, amigo comum. Cumprimentos, amabilidades. Trocam rápidas informações e se despedem. Mal se retiram, os dois cochicham. Ao constatarem que não havia o risco de serem surpreendidos, sincronizados, fazem um giro copernicano. Enquadram o objeto de desejo, se maravilham com o que veem. A baba, escorrendo pelo canto dos lábios. Segundos depois, retornam à posição anterior. Um deles indaga, enquanto o outro só balança a cabeça, então, que tal?


sábado, 28 de março de 2015

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

LÁPIDE

Não foi por dívidas. Sempre mantive as contas em dia, sem deixar de poupar algum. Pra viúva, deixo uma generosa pensão. Quanto aos filhos, sempre disse que pai é pai, mãe é mãe e filho é ingrato, mesmo assim, serão destinatários de uma bela quantia em imóveis e aplicações financeiras. Disso, não haverão de se queixar.

Não foi por doença. Sempre frequentei regularmente os médicos, inclusive o urologista, que minha próstata não me deixa mentir. O último ultrassom revelou dimensões levemente aumentadas, mas com contornos regulares e textura parenquimatosa preservada, tudo a demonstrar um resultado compatível com hiperplasia benigna.

Não foi por falta de amor. Sempre fui muito amado. Tanto e por tantas que muitas vezes tive a firme convicção de que não era merecedor. Receio que não tenha devolvido com a mesma intensidade.

Levo comigo uma antiga frustração. A de não ter tido habilidade suficiente para construir grandes amizades, apesar dos esforços. Como no poema, tive poucos, raros amigos. Algumas delas não resistiram ao tempo. Outras sucumbiram diante de circunstâncias que a mim pareceram desprezíveis, sinal de que não eram tão sólidas assim, tanto que se desfizeram em grãos de areia.

Não desperdicem tempo com quebra-cabeças. Não há um motivo aparente. Nem chorem por mim, que detesto pantomimas.
Ao contrário de Borges, nunca soube qual seria meu destino, o que não significa dizer que nunca o persegui.
Antes, precisava encontrar a mim mesmo. Pressuposto essencial.
Foi onde falhei.
Aconteceu que me cansei.
Simples assim.



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

TEMPO É O NOME DO SER

Era outono. A cidade acordou preguiçosa e com os olhos embaçados de quem se recusa a despertar. Pela janela observou a rua vazia e por alguns instantes a sensação do tempo parado despertou-lhe, além de curiosidade, a ideia de tirar algum proveito da situação. Nem cães vadios nem gatos enxotados se atreviam a sair dos esconderijos para remexer o lixo revirado sobre as calçadas, rescaldo da pantomima da noite anterior. Não fosse pela grossa fumaça que saía dos escapamentos os raros veículos que se lançavam passariam despercebidos, de tão silencioso o ronco dos motores. Imaginou que, congeladas até a alma, as pessoas, encurvadas, com os braços cruzados, e aprisionadas pelo medo de que os segredos pudessem ser revelados, recusavam a se mover e repetiam o mantra que lhes alimentava a esperança de um raio de luz que abrisse o azul no horizonte cinzento. Chovia uma chuva fina que, sem animar, não deprimia. Igual a que não consegue remover os entulhos deixados para trás e nem escorrer em busca de um leito para desaguar, mas que, imperceptivelmente, penetra o seio profundo da terra, irriga o ser encoberto e o desvela para a alegria da alma esquecida quando lhe remove os sucos, tal qual se revolve o chão batido da memória, tornando-a fofa, revirada e pronta para ser lavrada. Naquele momento quis uma chuva implacável e inoponível, que o arrastasse dali, livrando-o de todos os seus ais, desligando passado e futuro. Quis sim, como Kronos, negar o tempo, pô-lo a ferros. Sem memória e sem porvir. Regozijou-se com a ideia de que aprisionara para sempre o interlúdio instantâneo entre o que foi e o que virá. Desejou tanto eternizá-lo que sonhou com manhãs chuvosas nas quais era aquecido com um abraço forte, um beijo tórrido. Mas quando, a cada despertar, viu que eram iguais, as tardes cinzentas e o presente estéril, chorou copiosamente.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Angústia heideggeriana

é (o) ser jogado no mundo
sozinho
no abismo entre o que ainda não é [mas que será]
e o que não é mais [porque já passou]
é nele [gargalho estreito, instante fugidio] que, bem ou mal, nos movemos

e nos equilibramos

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

AGUILHÃO RIMBAUDIANO

Sonhava que era um temível caçador de tigres quando o telefone tocou. Era ela dizendo que acordara daquele jeito: apaixonada, mas logo que surgissem os primeiros fios de sol voltaria a odiá-lo. Antes de dizer palavra, a ligação foi bruscamente interrompida. Enquanto escovava os dentes e conferia o tom cinza que avançava rapidamente, refletiu e chegou à conclusão de que o mundo se divide entre dois tipos de mulheres: as que odeiam à noite e as que amanhecem mais apaixonadas do que nunca. Ou seria o contrário?
Com o ar de enfado, afastou os pensamentos vãos e desabafou: melhor e mais simples seria que a escolha pudesse ser feita entre as que usam máquina zero ou cultivam uma mata atlântica. Ou entre as que oscilam entre as montanhas gerais e um bolero de Ravel no final de uma tarde na praia, ali onde estamos mais perto de nossos ancestrais. Eu sou um pouco de cada uma e todas que existem dentro de mim te amam, mas isso só aumenta o ódio que sinto por isso, diria ela.
Constatou então que o mundo também se divide em dois tipos de homens: o primeiro é formado por aqueles que se internam num hospício, no segundo estão os que entram para um mosteiro de uma ordem religiosa qualquer e, por acaso, descobrem a fórmula do queijo gorgonzola.
Contudo, resolveu que não seria vítima dos mesmos dualismos metafísicos. Haveria de ter um terceiro tipo. Lembrou-se do sonho e foi picado pelo aguilhão rimbaudiano. Tomou uma decisão. Iria desfazer-se de tudo e partiria numa viagem sem volta, que duraria mil e uma noites, até o sul da África onde, jogado no meio das savanas e armado até os dentes, viveria borgianamente a sonhar com tigres, punhais e labirintos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ai, se eu te pego, João!

- ...
- Vou te encher de beijos!
- ...
- E serão tantos que depois tu vai me puxar pelo cabelo, vai me rasgar a roupa,  me arrastar até a cama...
- ...
- Aí então, tu vai botar a mão na minha coxa, vai demarcar o território, vai abrir sulcos profundos sobre a pele da minha bunda, vai me mandar lamber teu suor, vai mostrar porque é meu dono, me chamar de vadia!

domingo, 5 de janeiro de 2014

INAÇÃO, conto-recorte de Airton Sampaio


para Assis Brasil


Ao gritar o nome da cigana, Inação viu um homem, de pele queimada, aparecer na pedra onde Sulima costumava ficar despida. Ele estava sem camisa e tinha uma faca na cintura. Inação logo reconheceu: “é um cigano”. Ouviu o mato estalar nas suas costas e sentiu que estava cercado: “aquela desgraçada”. E tudo ficou em silêncio - o cigano lá, na pedra, feito uma estátua. Inação levou a mão à peixeira e ficou à espreita. O cigano desceu do lugar onde estava e quando surgiu na sua frente já trazia a faca na mão. É
o meu branco da casa da fazenda?
- Ele mesmo.
- O branco vai morrer, ouviu?
- É?  E quem vai matar?
- Esse aqui, na sua frente. .

E saltou sobre Inação que, rápido, mostrou a peixeira no seu rumo O cigano se desviou ligeiro como um gato e, no desvio, conseguiu ainda tocar,  embora de leve, numa das orelhas de Inação, que começou a sangrar. O cigano parecia flutuar no ar, leve como uma folha seca – dançava na sua frente, esbelto – e Inação pela primeira vez viu a cara do homem, que tinha a sua mesma altura - os olhos escuros traziam ódio, a boca estava fechada com rancor. Foi 
o branco quem abusou de Sulima?
- Todos vocês são uns cachorro.

Encararam-se como duas onças. Agora mediam melhor o espaço entre os dois - Inação fitava o cigano, para melhor acompanhar seus movimentos, e pensava, “é matar ou morrer,  não tem jeito”.  E então se lembrou que há dez anos teria enfrentado aquele cigano sem um trisco de medo, como naquela briga no terreiro defronte à casa da fazenda, para castigar um valentão que tinha desfeiteado dona Candinha.  O golpe mortal que dera no Doca Barroso fora considerado por Matias como um golpe de mestre. Era um golpe traiçoeiro, mas o homem tinha que ser ligeiro  como uma criança para conseguir seu intento.

Inação fitou a cara do cigano e viu foi a cara do Doca Barroso. Aí deu uma volta no ar, dez anos mais remoçado, mudou a peixeira da mão direita para a esquerda, balançou o corpo três vezes, deu um berro que podia espantar até os espíritos da mata e atingiu o cigano bem no pé do umbigo, enfiando a peixeira até o cabo – com a outra mão amparou o golpe da faca adversária, que ainda lhe riscou os dedos, “toma, desgraçado.” O cigano caiu a seus pés, já de olho vidrado. Inação tirou, com calma, a peixeira do corpo, limpou o sangue numa folha de bananeira e começou a sentir as pernas trêmulas. Teve ímpeto de sair correndo dali quando ouviu um galho quebrado na mata -  respirou fundo, o suor lhe empapava o rosto e o pescoço e sentia todo o corpo em febre. Esperou em posição de defesa. Tudo podia acontecer naquela noite, os ciganos tinham marcado a sua morte, já sabia.

O olho d’água continuava tranquilo, como se nada estivesse acontecendo. De vez em quando Inação ouvia um pequeno estalo na mata - eram eles dizendo que estavam ali. Mas não apareciam, como se esperassem que Inação tomasse sentido daqueles instantes e compreendesse que estava perdido.

Outro homem, de argola dourada na orelha direita – desta vez mais velho - surgiu na frente de Inácio. Trazia uma peixeira na mão cabeluda - a pele tostada, as sobrancelhas grossas. Inácio notou que ele mascava um pedaço de fumo, não lhe pôde ver os olhos  - a lua grande havia sumido. Pensou aplicar o mesmo golpe dado no outro cigano - agachou-se na frente do homem (este era mais sereno do que o outro) - a mão segurava com firmeza o cabo da peixeira – Inácio achou o cigano mais baixo do que o anterior - rodavam em torno de um círculo imaginário, como dois touros enfurecidos antes de entrechocarem os chifres. O cigano se aproximou mais de Inação e experimentou sua destreza com um golpe de baixo para cima, com intenção de botar suas tripas pra fora. Inação deixou que o cigano tomasse duas ou três iniciativas na luta - as duas peixeiras se encontravam e lançavam faíscas no ar parado da noite - nesses instantes os dois se mediam pela astúcia e pela força. Inação viu, após os primeiros golpes, que estava diante de homem mais experimentado - ele devia ter visto o golpe que dera no seu companheiro e não cairia no laço. E teve um repente: jogou a peixeira na cara do cigano, ele tonteou, o sangue descendo do nariz -  e o lnação torceu-lhe o braço até a sua arma cair no chão.

Estão desarmados agora, corpo contra corpo, bafo contra bafo, o suor dos dois se mistura - Inação sabe que não pode manter  a luta daquele jeito, sente um esmorecimento e se separa do cigano – os dois apanham de um salto a arma. Inação resolve aplicar o golpe que chama de traiçoeiro, pois ninguém até aquela data tinha se livrado dele - uma volta no ar, a peixeira de mão a mão, o corpo balançando na frente do inimigo, o berro de animal ferido e a facada certeira na barriga - o cigano se amparou em Inação, ofegante, os olhos arregalados, como a dizer “este homem é um demônio” – Inação retirou a faca ensanguentada e deixou o corpo cair numa poça do olho d’água.

A luta é desigual - pensa Inação – e só há um meio de escapar: fugir, correr em qualquer direção. Sente um principio de pânico, as forcas esmorecem, sabe que não poderá mais com o próximo cigano – eles não querem um massacre, querem uma luta de homem para homem, “vão fazer assim até me acabar". Por onde andaria Matias? Na certa namorando em algum sovaco da estrada de ferro. Era um festeiro, aquele compadre, mas na hora da precisão não  aparecia. E o pessoal da vizinhança, por que não surgia vivalma? E o padre, que sempre andava de madrugada, conversando com as estrelas? Pela primeira vez numa briga sentia precisão de ajuda. Inação respirava fundo e esperava, bem próximo aos corpos dos ciganos. O suor que sentia escorrer pelo peito já era frio - ou a noite esfriava com a lua escondida? "Os ciganos deixam que eu descanse, querem uma luta limpa, sem injustiça, os desgraçados". Inação tem as pernas trêmulas, a vista embaçada, aspira todo o ar que pode, estira os braços como para reunir as forças,  “eles querem me acabar". Outro cigano surgiu de repente na frente de Inação, como se tivesse saído do fundo do olho d’água. Para Inação aquilo já era mais pesadelo que realidade. O cigano, de peixeira em punho, não era um homem de carne e osso, já era um fantasma. Teve vontade de gritar e gritou: “Desgraçado”. O eco respondeu no fundo da mata: “Desgraçado”. O 
branco sabe que vai morrer agora?
- Traz toda a tua gente que eu mato tudo e dou pros urubus.

O cigano mostrou a peixeira reluzente e fez menção de atirá-la nele. Inação se agachou, o cigano pulou em cima dele e, com um pontapé,  o desarmou. Inação, agora desarmado, não pensa mais em correr, o ódio tomou conta dele - ouve a voz de Sulima, a sua gargalhada mato a dentro, sente o perfume de seu corpo, “desgraçada”, e grita, “desgraçado”. Sente um novo ânimo, o suor está quente no rosto, a vista mais clara - a lua grande saía das nuvens para ele ver melhor o homem à sua frente.

O cigano não deixa que recupere a peixeira - joga-a no olho d'água. Inação tem ímpeto de se atracar com o cigano, mas respeita a faca reluzente em seu peito, quando o  cigano, num movimento rápido, corta-lhe bem fundo os dois braços, um de cada vez. Ele sangra, mas não sente dor. O cigano mostra-lhe os dentes, vai picá-lo aos poucos, como Inação pretendia fazer com um deles, “depois dou pros urubus", então corta de leve o peito direito de Inação, que se defende com as mãos vazias, também riscadas pela peixeira afiada. O cigano só espera que Inação, na sua fúria, avance, para receber sucessivos cortes na pele - ele sangra, a roupa já está toda ensopada.  Ao gritar mais uma vez “desgraçado” Inação sente que as forças sumiam de vez e não estava longe o seu fim. O filhinho morto, a Zita, a Frecheira da Lama são apenas um sonho... O cigano deixa que Inação o abrace, numa última investida, e crava-lhe, com ira, a peixeira no peito. Eles beneficiaram o Inação, doutor.
- O quê, Matias?
 - Sim, senhor, caparam o Inação.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

NO FACE

Airton Sampaio

Nunca, o rosto dela, nenhum viu. Insistiram. Suplicaram. Rogaram. Rosto e voz, não. Apareciam seios, umbiguinho, as coxas grossas, a bunda enorme, o v invertido, às vezes pelado, às vezes peludo. Não era sempre não, que se dava. E, quando ele chegava de viagem, nem celular ela usava, nem queria. Não eram poucos os gozos em que se acabava em gritos, quase se rasgando, a imaginação a mil. Perigo de trair-se com a pronúncia inconsciente de um nome? Difícil, tudo era pseudônimo e não repetia o cara, jamais. O dela ela mudava: Gisela, Sandra, Manuela... Porém a mancha no peito, sim, aquela mancha no peito, seria possível, no mundo, duas iguais? Improvável. Mas não recuou e chegou lá. Bem lá mesmo. E bota lá nisso! Aí ouviu, disfarçando desinteresse, que ele contou para ele a aventura, a mulher que mais o enlouqueceu nem o nome dela ele sabia e nem o rosto dela, sequer, ele viu. Uma puta, a porra. Um vulcão, entendeu? Cadela, potra, cabra. Ele então disse para ele, ela também ouviu, que ele não precisava disso, que ele já tinha, em casa, a mulher mais gostosa do planeta. Virou a face pro céu, incontinenti ao elogio. Aquela tatuagem no peito esquerdo dele foi ele que chamou a atenção dele quando ele chegou no bar, a camisa no ombro, a bermuda jeans. De nascença isso, ele disse. Merda congênita, essa droga. Foi rápido ao banheiro, olhou-se de frente, de costas, de lado, de perfil. Nada, nada, nada, nada. Voltou à mesa serena, até cantarolou uma canção que falava de uma moça bonita de olhar agateado. Os dela eram castanhos e comuns, muito comuns. Mas aquela pintinha na maçã direita do rosto, um coraçãozinho antigo que.. Amanhã mesmo mando retirar, se disse. Ele, agora reparava, nunca nem notara, não ia, é claro, se importar.

domingo, 30 de dezembro de 2012

DE DENTRO DOS OLHOS DO LOBO AZUL


Quando dei por mim eu tinha uma coluna vertebral ereta, me apoiava sobre duas patas e dava os primeiros passos. Nunca mais seria o mesmo de antes.
Meus dedos (ou serão meus olhos?), a julgar pelo cheiro que exalam, parecem que ainda estão afundados dentro de ti.  
Seja tolerante comigo, é quase certo que logo mais já não sentirás o cheiro de enxofre quando espetar minhas veias.  Eu só preciso de um tempo.  Antes que me arranquem o coração. Exatamente o que querem de mim. Olhando o nível de oxigênio, começo a refletir: deveria mesmo ter atravessado a rua?
É como o poeta, que certa vez disse: ”o corvo pensa no fígado, devora a solidão”.
Meu repto ao poeta: o corvo pensa no coração, mas é o cérebro o que ele devora.
Não sei se chego lá, não sei.  Aquele trem, o vagão ficou mais distante. E não sinto meus pés. Como naquele sonho da infância distante. Na carroceria do caminhão. Lotado. Era festa. Muita gente. De repente, caio. Ninguém percebe. O caminhão contorna a curva. Grito.  Ninguém ouve. Eu me esgarço. Ninguém vê.  O caminhão segue. A vida segue.  Minha própria voz (ou seria minha dor?) me ensurdece. Tento me levantar, e percebo que não tenho mais minhas pernas. Não vejo o sangue. Apenas estou no chão, e o mundo desce sobre mim, sem dó. E não são apenas quatro.
E esse céu, e essa nuvem blanca?
Será apenas uma passagem ou serei eu que não estou morto Campos de Carvalho?
Seja tolerante comigo. Já-já te deixo em paz. Amanhã, talvez, com certeza.
Não sei.
Olhando bem, percebo que ainda tenho a coluna vertebral ereta e é com as pernas sobre as quais me apoio que darei meus últimos passos.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

CONTOZINHO DE NATAL II



Um casal saíra de um restaurante.  O homem cambava. Bêbado, imaginou.  Então, Jesus Cristo, com uma arma de brinquedo, a única para os três filhos, disse: É um assalto.  A mulher, a infeliz mulher, delegada, sacou de uma 465 e deu-lhe três tiros nas fuças.  



domingo, 18 de novembro de 2012

PÔR D0 SOL

Aquele que ali vem não é Jomar, apesar do andar estabanado do Jomar. Esse, que aí vai, é quase um clone do Rudá e seus passos miúdos e ligeiros. Esta que logo se torna uma estranha bem que podia ser Sara, amor da minha longa vida jamais realizado num único beijo sequer, mas não é a Sara, a mais bela das desdenhosas do nosso tempo. Por que o tal médico dela o escolhido? Ainda hoje desatino a razão da extremada sorte dele, que o cu voltado pra lua nunca tive. De longe, se apurar bem a velha vista, vejo Homero, apressado rumo ao jornal onde diariamente não dava trégua aos corruptos, mesmo sempre derrotado. E aquela acolá...

Bem, uma vez por semana me trazem do abrigo de anciãos até aqui e ali, num banco da igreja do Amparo a custo me ajoelham, e rezo. Ele, porém, a súplica há muito não me atende e vou ficando aqui quando todos os que amo e odeio já lá, aquietados, no outro lado do mistério, estão. Que pecado tão capital cometi nessa quase centúria? Não, minhas faltas não têm esse valor, que nunca passaram elas de erros que só a mim prejudicaram, como quando joguei tudo pro ar para correr atrás de um rabo de saia que logo se esvaiu, coisas de que essas doenças que me torturam já são juros mais que suficientes acrescidos ao pagamento que, por uns trinta anos, já efetuo. Então, por que não me atende Ele o pedido? Por que não me pode a Noite sobre mim, enfim, descer? Até meus desaparecidos inimigos, uns dois ou três mais empedernidos, até eles decerto concordariam que fazer cem anos é sacrifício que, como dizem no tempo de agora, ninguém merece...       

EU VI YO VEO

Eu vi um ministro de estado decir que o objetivo é mandar aquele povo de volta ao medievo.
Eu vi que um dos cavaleiros (aquele do caballo cheio de musgo e que atende pelo nome de intolerância) tremulava o estandarte negro e de sua boca, enquanto falava, escorria o sangue do inocente.
Eu vi as sapatas e as lagartas avançarem sem peias sobre la ciudad del hombres desterrados e não era nenhum sentimento do tipo isso eu já vi antes.
Eu vi que a guerra y el fuego são o alimento do homem e ele não tem fim.
Eu vi um andarilho no meio da carretera no meio da noche olhava para o firmamento e contava tantas estrelas quanto sua memória suportava e não compreendia porque algumas delas mudavam de lugar.
Eu vi um bardo manco desconstruindo versos que acabara de tecer para depois canibalizar um a um como quem pide perdón pelo que podia ter sido e não foi.
Yo vi un meteoro fumegante tingindo o céu de cinza e por um momento me lembrei da estrela cadente da minha memória de menino.
Eu vi um gato negro ele cruzou a calle ele se escondeu no beco ele seus olhos confiou a mim eles queimaram-me as mãos.
Eu vi um cão pestilento de ojo azul arrastando sua pata traseira sem forças para ganir e nesse momento eu pensei talvez seja a hora de estocar comida.
Eu vi una virgen de pelo largo riscando o chão com uma varinha de condão e eu disse nessa jangada de pedra eu também quero um lugar.
Eu vi um homem se alimentando da própria hambre.
Eu vi num cruzamento qualquer entre duas ruas ninos engolindo bolas de fogo e fumaça.
Eu vi meninas de rostos sujos de olhos fundos exibindo rosas desfolhadas antes da primavera de mayo.
Eu vi una mujer com o ventre vazio e um menino não nascido entre caixas e papelões.
Eu vi la lumbre lucir  enquanto la luna  se escondia no oriente.
Eu vi o acontecer o descortinar o tecido se formando a teia se erguendo o ovo da serpente o amor sem pecado,  pero cuando abri os olhos eu já estava muerto.
Esas y otras cosas yo vi,
mas, eu, asi como nosotros, nada hice.
Eu também não vi el otro.
Eu também não lancei um olhar porvenir.
Solamente vi.
Unas cuantas eu deixei de ver, acho que de propósito.
Aquellas eu escondi.
Otras yo sé que nunca.




 

domingo, 30 de setembro de 2012

A REDENÇÃO DE SÍSIFO

(esta é uma obra de ficção e, portanto, não resolve o problema do paradigma do fundamento sem fundo)

Como anda a capacidade de perdoar? Sim, eu O desafiei, o que foi compreendido e interpretado como uma ofensa. E aí, porque não pôde se conter, revelou-se a face cruel e vingativa. Foi há tanto tempo atrás. Mesmo assim, Tua ira não se aplaca. Não é exatamente o peso que aflige. O que esgarça a alma, o que atormenta, é o fato de, a cada recomeço, ter que relembrar a triste existência. Nisso, tenho que reconhecer, Você foi perfeito. Tivesse arrancado a memória ou a capacidade de compreender os sentidos, a história já teria tido sim um desfecho definitivo. Cansei-me, essa é a verdade, se é que há uma além daquela absoluta.  E hoje, sobretudo hoje, acordei com um ar de enfado que, acredito, jamais encontrará outro que o rivalize. Chega.  Pra que carregar o fardo até o topo, se, antecipadamente, já sei que sempre terei que voltar ao ponto de partida? Se a cada retorno, mais um degrau na escala da degradação humana foi acrescentado?  Se, no final das contas, nada, mas nada mesmo, faz sentido. Sem falar que aqui, deste lado ocidental, tudo não passa de um faz-de-conta, quando não é uma comédia. Essa a realidade presente, a mesma de ontem, a que se repetirá. Afinal, porque resistimos? Todo esse esforço, desde sempre, atende uma única razão prática: manter-se vivo, estar-aí, ainda que o custo, altíssimo, no meu caso, seja a perda da dignidade. Terá valido a pena? De que adianta, se no derradeiro dia o encontro que vimos adiando será inevitável?  Tudo é inútil. E na parte de cima das coisas inúteis nem é necessário dizer quem está à frente. Sejamos realistas.  Já nascemos condenados à morte, alguém já disse, meio que filosofando.  Recuso-me a partir de agora. Quero a finitude de volta. Cheguei ao limite. Aqui eu paro. Vou descer. Mas antes que me esqueça, obrigo-me a dizer: nada me tira da cabeça a ideia de que Você Falhou. Eis aqui a prova quase morta disso. Que Hermes tenha piedade e me entregue nas mãos de Hades.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O MATADOR



Aquele que tentara se matar, o primeiro.  Puro altruísmo.  A revolta do n.º 1, quando se viu no leito do hospital, sensibilizou-o.  Também a sedação que lhe foi administrada, apesar dos aparelhos indicarem vida, ganhou, nele, a feição de morto, como se o destino para ele traçado se encerrasse naquele dia.  Sim, atenderia ao desejo do moribundo antes de ir pra casa.
O moço que lhe trouxera, inconsciente, apenas deixou-o no hospital. Saiu murmurando filho da puta repetidas vezes. Durante o dia ninguém o visitou. Afora esbravejar por lhe frustrarem o suicídio, o desgraçado silenciou-se; mesmo quando perguntado se queria que alguém fosse avisado.  O sorriso de desdém, quando momentaneamente parou de se debater na cama tentando livrar-se das cintas que o prendiam, era mais claro do que um não irredarguível.  Imaginava, então, que, em sua visita noturna, ele estaria sozinho, como, parece, sempre esteve.
O apartamento em penumbra: a iluminação da rua, acanhada, visitava o suicida como um tênue fio de vida. Mas bastante para encaminhar-se até o infeliz e manusear o scalp, esvaziando em sua veia, rapidamente, todo o ar contido na seringa. Pronto.  Satisfeito, logo mais, o desejo do paciente.
Aquele que tentara se matar, o primeiro.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ATO FALHO


Sozinho, demais, no apê. Trancou a porta da cozinha. Fechou o basculante. Pôs algodões nas frestas. Ligou o gás. Deitou, de bruços, no chão. Surpreendeu-se numa cama de hospital. Doutor, quem teria sido o merda que...

domingo, 26 de agosto de 2012

... CANIVETE CORNETA À MÃO, GOLPE PRECISO

Por falar em malabarista, um de farol, no próximo sinal de trânsito. No lugar de bolas ou bastonetes, limões. Pego meu meio taco de sinuca, que trago escondido no casaco. Ando sempre de casaco. Por isso ninguém mexe comigo, pensam que se trata de um louco, pelo fato de usar casaco nesse calorão.  Eu sempre trabalho com três opções de golpes. Não vou acertar na cabeça, já decidi. Seria fácil demais. As pernas, dos joelhos para baixo serão o meu alvo.  Se optar pela parte superior das pernas, não vou bater com tanta força, quero apenas parti-las ao meio, mas sem separá-las, no máximo deixarei igual a dois mocotós unidos apenas pelo tecido subcutâneo, lado a lado, da mesma forma como ficam expostos no Box 14 do mercado do Mafuá depois do meio-dia, as moscas varejeiras circulando em volta.  Bem que eu poderia ser mais cruel. Se assim resolver, o objetivo será acertar os tendões do calcanhar de Aquiles com força suficiente apenas para rompê-los, sem abrir qualquer corte. Mas para isso, o golpe tem que ser perfeito. Combinar força com precisão. A ideia me surgiu a partir de uma história que me contaram do meu bisavô, esse sim um homem cruel, segundo soube, pois não o conheci em vida. Mantinha sua propriedade completamente cercada. Quando um animal, desses de pequeno porte como um cabrito ou um leitão invadia os limites de seus domínios, aproveitando uma brecha ou rompendo a cerca, ele mandava os agregados prender o bicho. Em seguida, pegava o velho canivete Corneta e, com um golpe preciso, cortava os tendões das patas traseiras do pobre animal. Maior precisão cirúrgica seria impossível, de tão perfeito o talho que se abria. Nesse tempo ainda não se falava em sociedade de proteção aos animais. O passo seguinte era jogá-lo por cima da cerca de arame farpado e contemplar a dolorida cena. Para deambular, o cabrito ou o capado ou o pequeno cordeiro, estropiado, tinha que apoiar todo o peso do corpo nas patas dianteiras. As traseiras, essas apenas se arrastavam com muito esforço. Tanta era a dor que, à medida que lentamente se arrastava, um rastro de mijo irrigava o chão estorricado. Era de dar pena, segundo dizem. Sei que é cruel demais, mas foi pensando nessa imagem que eu mudei os planos novamente, assim como abandonei a ideia inicial de arremessar para longe a cabeça do malabarista, e decidi acertá-lo com o taco nos tendões e com um desafio a mais: o serviço tinha que ser limpo, sem corte, sem sangue. Além do que, queria também satisfazer uma curiosidade. Saber se era tão bom malabarista a ponto de se manter em pé e continuar a executar o seu número até que o sinal verde abrisse.
 
Fiquei de tocaia. Quando o sinal vermelho acendeu e ele começou a jogar pra cima aqueles limões murchos, eu me aproximei rapidamente por trás e desferi dois golpes sequenciados, quase instantâneos, um para cada tendão. Nem deu tempo de o malabarista tentar se apoiar num deles e se defender. Foi ao chão e espatifou-se como um tomate podre. Os limões rolaram em direção à sarjeta. O trânsito foi interrompido. Na confusão, sai dali rapidamente. Um caprino tem mais fibra na têmpera do que um ser humano, conclui com uma serenidade de fazer inveja.